Quarta-feira, Agosto 26, 2009


Meio Que Muito



Moleque travesso, traquinas e danado, subiu no muro da casa ao lado da casa ao lado do meu prédio. E ficou lá, balançando as pernas magrelas involuntariamente.

Quando o fez, o vigia da rua logo se aprumou, levantou de sua cadeira meio que praiana, feita de canudos de plástico azul índigo, quase puxando a arma do cinto. Mas o menino ficara em cima do muro, não invadira propriedade de ninguém. Onde estava a lei que proibia subir em muro alheio? Pigarreou, tirando a mão do cinto da arma e levando-a ao bucho saliente, acariciou-o duas vezes em círculos, como uma grávida, e andou em direção ao menino que sentado lá no alto, não percebera o alvoroço atrapalhado do homem.

- Desça daí, moleque! – bradou o buchudo.

O menino fitou-o com uma incredulidade ensaiada, com os olhos meio que saltando, meio que enchendo de lágrimas.

- Não adianta fazer bico, moleque danado! Desça já daí! – continuou o vigia em seu cacoete meio que lordose, meio que cigarro.

- Onde está a lei que proíbe subir em muro alheio? – levantou uma sobrancelha atrevida, o moleque de joelhos ralados e pés descalços.

- Ora, mas que atrevido... Sua mãe não lhe ensinou a respeitar os mais velhos? – o lordosento fumante buchudo colocou a mão no que era pra ser sua cintura, meio que pra mostrar impaciência, mas era mesmo meio que muito cansaço de passar o tempo todo sentado.

- Me deixe! Não estou fazendo mal a ninguém!

O homem não tinha o que argumentar. Um silêncio de cinco segundos abriu o vão necessário para o moleque voltar a fitar o horizonte, descontrair as pernas e deixá-las balançar novamente.

- Menino... Mas por que tu subiste aí afinal de contas hein? Não vê que é perigoso? Podes cair e quebrar a cabeça!

O moleque magricela e mal-cuidado como era, meio que de rua, soltou um esboço de riso irônico, daqueles que duram um segundo, mordendo a língua torcida na boca. Esperou o vigia chamar-lhe atenção mais uma vez em vão. Ele só ficou parado ali embaixo, meio que simulando paciência, meio que querendo vencer pela pressão da disponibilidade. E venceu.

A expressão do menino sumira, a face tornara-se pedra de estátua que nem ri, nem chora, nem posa, meio que todo dentro de si, muito adulto para sua miudeza. E foi nessa hora que cheguei para ouvir.

- Eu só queria ver como eram as coisas daqui de cima. – confessou meio que envergonhado, meio que receoso.

O vigia continuou encarando-o como se aquilo não fosse suficiente.

- Daqui, quando o senhor olha pra mim daí de baixo, vejo só a bolota do teu nariz, preso em outra bolota que é a tua cabeça, preso em outra bolota que é o teu bucho. As pernas eu não vejo, só os sapatos pretos. – o moleque desatou a gargalhar, mas como o vigia não o acompanhou, enfatizou – É engraçado!

Agora, o buchudo pendia a cabeça pro lado e deixava as pálpebras caírem até a metade dos olhos, meio que de descrença, meio que como quem acha tudo uma grande baboseira.

- E o sol está se pondo e é tudo muito rápido, então, com licença – levantou a cabeça novamente para o infinito e dessa vez as pernas não voltaram a balançar, tenso como estava.

- Se você não descer daí agora, vou ter que te puxar pelos tornozelos – tentou ameaçá-lo o buchudo, mas sua voz meio que de cigarro estava mais para de algodão.

O moleque, sem desviar o olhar, balançou as pernas voluntariamente, meio que provocação, meio que motivação.

Suspirando audivelmente, o vigia se deu o trabalho de ir à casa “opegado” e pedir a escada do pedreiro. Enquanto ele vinha, com a lordose mais acentuada que nunca, o bucho estufado como sempre, o menino deu uma olhadela rápida sem movimentar um único músculo exceto um sorriso sem dentes, meio que invisível, meio que ilusão minha.

E o buchudo encostou a escada no muro e pediu mais uma vez para o moleque descer. Ignorado, verificou a segurança de subir, e no segundo degrau parou para olhar para cima, meio que com medo do menino empurrá-la, meio que com expressão de “ouse fazer isso”. E arfando, subiu.

- Vamos. Se faça de macaco nas minhas costas, é seguro.

- Não estou com medo – o menino ainda não o olhava, sempre fitando o horizonte, e ignorou seu pedido mais uma vez.

Esticando o braço para agarrar o do menino, se desequilibrou. E sem nem estremecer, o moleque segurou a escada, meio que super-herói, meio que em transe. No impulso de salvar-se de uma queda que lhe quebraria a bacia, o fêmur e talvez a coluna, o homem deixou o bucho pesar para frente, segurando-se no muro. Como tremia sem parar, sentou-se ao lado do menino que continuava imóvel, pernas tensas, rosto sem nenhum esboço. E sentou-se cabisbaixo, velho, meio que vencido, meio que cansado. Até que levantou o olhar, meio que tímido, meio que curioso.

O moleque travesso, traquinas e danado, que levantava sobrancelhas atrevidas e vestia pés descalços, que deixava as pernas magrelas balançarem involuntariamente, e às vezes as balançava meio que provocação, meio que motivação, com os joelhos ralados, mal-cuidado como era, meio que de rua, que ensaiava olhos meio que saltando, meio cheio de lágrimas e que tinha risos de ironia de um segundo e de vez em quando parecia estátua, muito adulto para sua miudeza, retoricamente perguntou:

- É bonito, né?

O vigia, armado, com um bucho que acariciava em círculos duas vezes como grávida, fumante, com lordose acentuada, que às vezes segurava onde era pra ser sua cintura de cansaço de ficar tanto tempo sentado em sua cadeira meio que praiana, feita de canudos de plástico azul índigo e que após ralhar tentava vencer pela atitude meio que disponibilidade, meio que paciência, com a voz de algodão que de vez em quando sobrepunha o seu cacoete de cigarro, respondeu sem necessidade:

- É meio que... Muito.

E eu nunca havia esquecido a pressa de entrar com o carro no prédio antes do portão abrir por completo ou subir pelo elevador me reclamando do cansaço do trabalho pela minha expressão azeda ou chegar largando as coisas no sofá como se houvesse alguém para fazer birra. Nesse dia, eu meio que esqueci.


Postado por Laila Razzo às 12:01 PM


Segunda-feira, Agosto 10, 2009


A fear: what if my art never means anything to anyone but myself?

Nada mais precisa ser dito, e, ainda assim, é tanto o que borbulha na minha cabeça agora, acerca dessa frase que chegou a mim do nada, que não seria bom deixar implodir.

Arte é sempre uma coisa muito solitária, partindo dos aspectos mais óbvios como o de que arte é o que se acha que é, ser sempre algo particular, apesar de muitos verem arte como, não um conceito, mas exemplos do que pode sê-la dentre as várias escolas. Não posso virar as costas para essa arte jogada na cara, mas também não consigo vê-la apenas como isso. Eu vejo um conceito, possivelmente vago, mas o mais próximo da realidade da arte. Arte, como eu vejo, seria qualquer coisa, realmente.

Uma vez, um amigo descreveu arte como tudo aquilo que proporciona entretenimento. Não concordo com o "tudo aquilo", muita coisa que entretem pode vir apenas de técnicas postas juntas em uma regra infalível na forma mais fria e mecânica, e bom, eu custo a acreditar em uma arte sem sentimento, sem profundidade. Ela pode até existir, mas não é nada além do produto de um cálculo. O pioneiro naquilo, pelo fato de ter passado pela dificuldade e pelas tentativas de espremer leite de pedra com simples criatividade e percepção aguçada, possa ser considerado um artista talvez, livrando-se de toda a culpa de seguirem sua fórmula com um âmbito impuro. Creio que uma parcela dessa confusão em relação a arte se dá pelo fato de inteligência ser sempre confundida com ela, assim como aspectos revolucionários e rebeldes. Apesar de não poder virar as costas para feitos inventivos e inovadores, não consigo considerar um excelente estrategista como artista, assim como seu estratagema não seria uma obra-prima. Criar nem sempre é sinônimo de fazer arte.

Por outro lado, ainda fica em mim uma interrogação, pois o que eu sinto em relação ao que é produzido por pessoas do alto de sua sagacidade, seja o que for, me causa a mesma admiração e até dá vontade de exclamar: "ESSA CRIATURA É UM(A) ARTISTA!". Provavelmente, a tentativa de conceituar arte e artista é só uma necessidade de elitização. Elitizar é enxugar até que fiquem gatos pingados merecedores de uma supervalorização. Mas e Seu Zé da esquina, feirante e miserável de educação, que um dia acordou com uma angústia enorme no peito pensando que, se pudesse, iria pra bem longe daqui e que seus olhos de catarata pudessem reproduzir imagens dignas para ficar na memória e resolveu fazer uma águia de sucata pra pendurar na porta de casa? Ele é menos valorizado por que?

Mas como se pode abrir essa discussão se já no início está concluída? Arte, afinal, é tudo o que se quer que seja, é tudo o que, para ti, em algum momento, parece-te arte. Fica claro que a arte para mim, mesmo já armada de um conceito principal, ainda é nebulosa e variável, e essa ainda é, e creio que sempre será, a melhor forma de vê-la. A arte é irrevogavelmente vaga, e sempre bela, mesmo quando mórbida.

Sendo ela algo tão íntimo e particular, as pessoas ao teu redor seriam realmente capazes de apreciar o que tu fazes que considera arte? Um conceito teria que ser exposto para que a compreendessem? Mas, o que é arte não é para falar por si só?

Eu e Seu Zé da esquina com o sonho de outro mundo e olhos de águia estamos no mesmo barco. Esperando que alguém bote fé.


Postado por Laila Razzo às 5:03 AM


Our lives begin to end the day we become silent about things that matter M. L. K.

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2, Dezembro, 1988.
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