Terça-feira, Setembro 30, 2008

Cara, serião, pra que tanta metidez nesse povo? Por que diabos hoje em dia todo mundo é cara de cu? Até o Adrian Brody aqui em São Luís do Maranhon (e em qualquer outra civilização não-hollywoodiana) seria nariz em pé. Acho impressionante.

Vamos pensar bem bonitinho, vou mastigar tudinho pros fofinhos neo-sarcásticos:

Foi-se o tempo que era diferencial ser metido, misterioso e sarcástico, ok? Sabe por quê? Porque hoje em dia isso é tendência de todos os verões, primaveras, invernos e outonos.

Se for pra bancar o gostosão, a pessoa de conteúdo, engraçada, interessante etc, vá lê um livro ao invés de fazer lista de filmes cult que você já viu (e não entendeu nada); redefina prioridades quando as suas ainda são entrar no orkut pra curiar a vida alheia, escrever de forma estereotipada pra parecer alguém e entrar em comunidades consideradas top do sarcasmo cool; antes de soltar uma resposta malcriada por parecer bonitinha veja que não há nada de bonitinho nisso; ou sei lá, nasça de novo, porque já chega. Antes se se era falso com sorrisos e efusividades para com pessoas que só precisavam desaparecer de vista e eram pedras, rochas e montanhas sendo lançadas. Hoje em dia todo mundo se odeia sem motivos concretos, se odeiam só porque um é metido pra um lado e o outro é pro outro e "incrivelmente" não vão com suas devidas feices pela mesma razão: "hmmm, essa menina se acha muito!" e em tempo: "esse cara é muito otário!".

As pessoas só podem achar que têm uma bolha em volta de si mesmas concentrando o limite de ar respiratório pessoal, porque não é nem você esbarrar nela com pressa ou tropeçar e empurrá-la sem querer, o que mesmo não proposital dá raiva. O problema é que apesar de você chegar na maior simpatia conversando, demonstrando um mínimo de afeição, fazer algum elogio, já vai acarretar a linha de que você tá por baixo e a pessoa é a maioral, afinal de las cuentas: "fulano veio falar comigo 'todo todo', babaaaaando meu ovo... hê hê hê (sou foda)". QUÊ?! Ora, faça-me o favor...

É por isso que meio mundo se conhece, se encontra na rua e é impossibilitado de ser no mínimo simpático com um "oi", por exatamente não querer dar ibope pro segundo. Incrível. Quem é famoso aqui, por favor? Todo mundo vive de imagem, ok, mas quem é realmente o famosão balabangú?

Eu, como uma pessoa irônica de berço, acho engraçado e enojante ver em tudo que é canto o uso do sarcasmo exagerado acoplado à atitudes frias e intolerância demasiada. Esse senso de humor sempre foi ligado às pessoas de conteúdo, e isso nunca foi regra, MESMO, mas era no geral um indício de personalidade. Esse indício desapareceu, sobrando apenas o indício da falta dela. Quão irônico.

Ao meu ver, o sarcasmo e a conduta "narcisista" que impera são resultado de insegurança, de querer fazer-se melhor da maneira errada, pois não é bem assim que se valoriza.

O Homem é um ser social, esse fenômeno esmagador tem lá seus motivos sociais, sem dúvida. O fato de nos comunicarmos mais por interfaces virtuais do que pessoalmente, a crescente onda do underground virando mainstream, a imagem representando cada vez mais que verdadeiras ações, fazendo o visual existir sem uma base ideológica e as pessoas utilizando-se disso sem nenhum conteúdo e inteligência para serem realmente alguém que se diga: "cicrano pode, ele é ele". E em toda taxa crescente disso acontece uma movimentação da massa.

Como seres sociais, nós tendemos a agir como a maioria age, mas, como seres sociais nos esquecemos que antes disso, criamos vínculos uns com os outros e procuramos, por uma questão de existência bons vínculos, o que esse novo fenômeno impossibilita. Quando chega a aproximar duas pessoas, eu boto minha mão no fogo que entre eles são pessoas sensíveis e atenciosas, normais! Os que sofrem dessa influência e se fecham completamente vão morrer sequinhos, sem amigos, sem bons sentimentos, sem o necessário pra qualquer um ser, de fato, feliz. E os que ficam somente na receptiva (nada receptiva) podem perder grandes oportunidades de conhecerem pessoas legais, reconhecer novos amigos, desenvolver algum senso e crescerem por influência do outro.

Por isso digo: sejam sarcásticos! Sejam sim. Mas o sejam verdadeiramente. Quem o é verdadeiramente, é criativo, não faz com que toda sua conduta se transforme em falta de educação e liderada por uma corrente de ações coerente nos extremos da coisa.

Criar uma personalidade para ser admirada hoje em dia é a coisa mais fácil, o ruim é ser você mesmo, mas é a única forma de ser realmente você... Não é? E narcisistas e nariz em pé de plantão vazios até o dedinho do pé? Metam nos respectivos fiofós até aparecerem na capa da Vogue, assim fica de acordo.

por Laila Razzo *

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Já tentei começar vários posts e nunca termino nenhum, tudo o que eu escrevo tem merecido uma estatueta de estrume, tirando as coisas que acabam sempre ficando só pra gente, talvez.
To doente, febre, dor de cabeça, calombo atrás das orelhas, parecendo um etzinho com minha pele em polka-dot pattern e não sei que diabos é isso, o exame de sangue não deu nada. Nessas horas todo mundo vira médico... E é uma belezura, porque no meu convívio familiar se acha todos os tipos diferentes de "medicina". A irmã mais velha vira e diz que se for rubéola é um mês pra curar, de acordo com o namorado dela. Se Marinete tivesse bem de saúde também e estivesse vindo trabalhar já teria arranjado um chá que cura tudo, de insanidade mental à caganeira. Vovó manda a canja fortalecedora, mas tudo parece sem gosto no meu paladar de língua saburrosa (!). Mamãe diz pra eu não tomar remédio nenhum, porque remédio faz mal... HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA!
Ficar em casa sem fazer nada é um saco, tirando que as pessoas tem todo o direito de não querer vir me visitar. Vai que elas pegam também? Sem fazer nada no caso porque já cansei de ficar só assistindo filmes, de ficar repousando, da internet, de tentar escrever alguma coisa que preste, de desenhar roupas pra mandar fazer, de pensar...
Vou me jogar na cama e mofar com overdose de David Bowie.

por Laila Razzo *

Domingo, Maio 25, 2008

Medo. Medo de te perder por tão pouco. Um segundo muda tudo. Todo o curso de uma vida. Se talvez tu tivesse saído de casa trinta segundos antes ou depois não aconteceria nada. Eu não teria que segurar a náusea de escutar a voz da minha irmã trêmula ao telefone dizendo "teu pai sofreu um acidente", nem ter os joelhos fraquejando fazendo eu me sentar sem eu mesma querer, nem não saber de onde saiu uma voz muito mais grossa e firme do que a minha de praxe ao perguntar vezes seguidas: "Cala a boca e me diz se ele tá bem. Ele tá bem? Ele tá BEM? ELE TÁ BEM? Me diz se ele tá bem". O silêncio do segundo entre a pergunta e a resposta pareceu minutos, meus ouvidos não captavam nada, era o vácuo, era um precipício, ecoando meus últimos pensamentos antes de receber a ligação: tu, trajando a melhor roupa, em um tapete vermelho, e eu rindo das tuas falhas tentativas de se comunicar em inglês, o verdadeiro Tarzan.

Conhecendo bem a minha família, todos desabariam, todos enlouqueceriam, perderiam o senso, dramatizariam. E eu também não sei de onde tirei qualquer força pra não chorar. Tudo o que eu sabia era que se deixasse derramar uma lágrima, outras mil cairiam, todos os meus medos e anseios tomariam conta de mim e eu perderia qualquer controle, qualquer chance de passar força e convicção de que tudo mesmo estava bem às pessoas ao meu redor.

Eu odeio hospitais, tu sabes disso. Eu odeio hospitais por como as pessoas viram hipocondríacas em hospitais, em como hospitais levam as pessoas a falarem de tragédias e em acreditar piamente que alguma coisa tem que está errada. Hospitais são ambientes pesados, não existem sorrisos, não existem esperanças, quando o essencial seria ter, sendo um ambiente de cura, de descanso, de recuperação do corpo e consequentemente espírito. E eu odiei tudo naquele hospital. Eu não aguentei ficar na sala de espera com toda aquela gente. Eu só conseguia ficar andando de um lado pro outro, do lado de fora, respirando fundo, procurando manter minha calma. "Tá tudo bem...".

Provavelmente foi estranho pra tantos me verem tão serena enquanto minha irmã se debulhava em lágrimas e expressões de preocupação que distorciam-lhe tanto a face que minha raiva aumentava só de estar perto. O sentimento errado, mas nisso não podemos escolher como nos sentir. Não sentia raiva dela, sentia raiva da situação. Não queria escutar ninguém falando, ninguém explicando as versões dos fatos, não queria ter que escutar as mil e uma histórias de pessoas que saíam de acidentes aparentemente bem e conscientes, mas com alguma hemorragia séria interna. Eu não precisava de nada daquilo, tudo já se passava na minha cabeça em um turbilhão. Graças a essa força, desconhecida por mim até aquele momento, eu fui capaz de suplantar todos os pensamentos negativos pela simples frase "ele tá bem", pelo querer que aquilo fosse verdade.

Me enfiaram dentro da UTI. Tua preocupação em me ver ali, te vendo com o rosto coberto de sangue seco, preocupado de eu estar preocupada, me atingiu, mas mais uma vez, não sei como consegui manter uma expressão de calma e falar tão tranquilamente que eu só tinha entrado pra te dar um beijo e ao nem estar ali ao teu lado por cinco segundos, sair.

Isso me lembrou como quando eu caí do cavalo, naquela viagem que fizemos, em cima de uma pedra e tudo o que tu fizeste foi rir com tranquilidade e falar pra eu levantar dizendo que não tinha acontecido nada, quando meu maior medo era ter perdido o movimento das pernas. Eu e tu somos dramáticos, e sim, sempre pensamos no pior: "não vou andar mais pro resto da vida" ou "meu cérebro deve estar à mostra mas eu não consigo sentir, afinal de contas, de onde vem tanto sangue?". Percebo agora que tudo o que eu quis te passar ficando só cinco segundos ao teu lado, sorrir e dizer que eu tinha ido lá só pra te dar um beijo e que eu sabia que tava tudo bem, foi pra te passar uma segurança que eu sabia que tu não tinha. Nós dois além de dramáticos, somos muito, muito medrosos. Pelo menos não sou eu que passo mal só em ver sangue.

Eu tinha passagens compradas pra uma viagem em algumas horas daquela espera torturante de algum resultado de novos exames, pensei em não ir mais, em ficar, pensei que ainda assim poderia ter alguma coisa que os médicos não haviam captado, e no meio da viagem eu recebesse um telefonema muito pior. Eu tive medo, eu tive muito medo. Eu tanto esperava por uma certeza que estava realmente tudo bem, quanto um tempo só pra mim, pra que eu pudesse chorar o que tava preso por um nó dolorido aqui dentro.

Quando falei contigo de novo tu ainda quis saber o que eu ainda fazia ali! Vê se pode... E tu me disse pra eu ir cuidar de arrumar minha mala. E eu ri e te fiz rir. Te fiz prometer que tu não seria teimoso e dormiria no hospital senão eu não ia embora. Tu me prometer e eu dizer "Tu tá mentindo" e tu responder "Eu to" e rirmos me aliviou mais do que chorar. "E não ri, porque tu não pode rir, senão vai doer tudo!". Não tem nada no mundo que eu goste mais de fazer contigo do que isso, rir dos nossos diálogos cômicos em momentos deveras inoportunos para comédias, mas que nós dois de alguma forma conseguimos encaixar um motivo pra uma risada.

Lembrar disso tudo e dos "o que poderia ter sido" me faz tremer por dentro. Mas, "ele tá bem". E eu vou rir muito da tua cara no tapete vermelho inglesando palavras em português e da tua empolgação infantil, assim como vou continuar com raiva da tua teimosia e da necessidade de dar pitacos em tudo que crio com essa mania de querer lapidar minhas pedras. Sim, nada vai mudar, e a isso eu não sei a quem agradecer, mas eu agradeço.

por Laila Razzo *

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Eu estava me entretendo, rindo e esquecendo dos problemas quando de repente: lá estava aquele ser podre. Paro tudo para me enojar. Tanto me enojo que semicerro os olhos pensando na tamanha ousadia daquela coisa aparecer bem ali logo naquela hora. Quanta inconveniência! E vem aquela vontade de encher de murro, esganar, chutar e fazer uma sessão de sadismos escabrosos. Me aprumo e vou devagarinho em direção ao combate apanhando no meio do caminho a arma mais eficaz - combinando violência e alta porcentagem de serviço cumprido - para casos como esse. Eu bem sei que já perdi várias batalhas para criaturas como a tal, elas conseguem escapar com uma capacidade de The Flash e uma facilidade absurda de se meterem em qualquer buraco, muitas vezes até parecendo gnomos, que somem no ar em um piscar de olhos. Mas dessa vez não... Ah, mas não mesmo.

E eu fui chegando mais perto, com minha arma em mãos. Era capaz de escutar meu próprio coração batendo, o ruído da minha respiração não existia, a prendia não sei se por querer ou pelo nervosismo e excitação da situação. E quando penso que estava quase lá para um golpe certeiro e vitorioso, a porcaria não sai correndo? Sim, com aquelas patinhas asquerosas querendo ser Forrest Gump. Tenho pra mim que baratas são estrategistas de primeira, porque se você sai correndo atrás delas elas nunca vão em linha reta, elas procuram fazer o famoso "barata tonta" do jogo de queimado, que irônico. Assim como nos ensinam que se algum dia formos perseguidos por um jacaré em terra é só sair correndo em zigue-zague, já que o bicho é comprido e tem pernas muito curtas, o deixando atordoado e logo desistindo ou simplesmente tropeçando e tombando como um bêbado.

A maldita da barata subiu sambando no rodapé exatamente na esquina e se atirou de lá de cima, subiu de novo mais a frente em um passinho de valsa e se atirou de novo de volta ao chão, aposto como ela gritava "iupi" toda vez. Acabou indo desaparecer debaixo do meu puff! E agora? O que fazer? Música de suspense. Se eu levantasse o puff bem capaz de ela sair de lá toda escandalosa e acabar subindo no meu pé, o que me faria soltar algum som que demonstraria fraqueza. Pensei: "uma barata não me vencerá!" E o que fiz? Levantei apenas uma parte do puff, inclinando-o em direção ao meu corpo. Nada de barata. Será que ela havia saído pela fresta da porta? Esse pensamento me deu um leve alívio, pelo menos no meu quarto ela não estaria mais. Mas... não era isso que eu queria exatamente...

Inclinei o puff novamente, dessa vez em diagonal e nada de barata. Inclinei de novo, na outra diagonal, e espiei: nada de barata. Então eu saí chutando o puff igual uma louca, o que me daria impulso suficiente pra me esquivar caso ela viesse com gracinhas. E lá estava a nojentinha! Burra toda não fugiu quando pôde e veja só como essa magnífica estrategista funciona (e como sou boa conhecedora das mesmas): ela veio na minha direção! Ela não tem noção de tamanho e que os maiores geralmente comem os menores na cadeia alimentar? Não que eu quisesse comê-la, mas vocês entenderam o raciocínio, no fim dá tudo em morte. E como eu previa, consegui me impulsionar pra esquivar, segurei com tanta firmeza a lona do meu Converse que os nós dos meus dedos embraqueceram e PÁ! Foi um estrondo! E miolos de cucaracha sujaram o chão. Lá estava ela, imóvel, sem nenhum espasmo em suas antenas e tremeliques em suas patas. Enxuguei a gota de suor da minha testa com as costas da mão esquerda, dei uma olhada na sola do meu tênis melado de uma gosma amarelada (um impulso da mesma família do "olhar o papel depois que se limpa a bunda") e segui em frente com os preparativos.

Como um bom guerreiro muçulmano em meados do século XIX, não ia deixar o corpo de um inimigo para putrefação ao sol e sim enterrá-lo como enterraria meus companheiros de guerra. Tá, não foi por nenhum valor do tipo, foi mesmo porque uma barata morta é mais nojenta do que uma viva, então peguei três metros de papel higiênico para manusear a barata para o cesto de lixo, limpei o chão com um desses produtos que dizem fazer brilhar mais os vidros, já que não achei álcool, e voltei para o meu entretenimento de frente para a televisão satisfeitíssima por não ter perdido pra uma barata dessa vez, porque era só o que faltava! E também por ela não ser voadora, porquê aí sim seria um caso perdido. Agora tragam meu troféu!


por Laila Razzo *

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Todos somos sacos. Alguns são sacos de plástico, frágeis, qualquer pesinho a mais os fura. O jeito é colocar sempre dois, três, quatro, pra aguentar o peso das coisas, quando na verdade o Sr.(a) Saco Plástico deveria saber o seu limite e só carregar aquilo que consegue, para não precisar de outros. Outros, são sacos de pano, aguentam bem mais que os sacos de plástico, mas a maioria dos líquidos lhes deixam manchas eternas e os arremedos de seus furos ficam bem feios e lhes distorcem a forma. Já outros, são sacolas de compras de shopping, têm um design bonito, agradável, vêm com uma marca estampada, mas depois que chegam em casa juntam-se ao montante de todas as outras de compras anteriores e ficam lá, sem propósito algum. Existem também aquelas sacolas de mercearia, ásperas ao toque. Duram bastante, são eficientes, mas desfiam, tornando-as cada vez mais difíceis de passar-lhes a mão com prazer.

Todos somos sacos. As alças rompem vez ou outra e se dá um nó para tentar seguir aguentando a carga, enchem-se e esvaziam-se a todo momento, são jogados no lixo com frequência, já que sempre terão outros disponíveis, e de repente, quando mais se precisa de um saco, não se acha nenhum.

Todos somos sacos. Às vezes percebe-se a evolução de um rompimento, e não se faz nada, esperando que não rompa. Às vezes se faz e se dá ao saco mais alguns dias de vida. Às vezes se rompe de repente, por falta de atenção, por falta de critérios e/ou por falta de noção. Outras vezes simplesmente voam em uma corrente de vento inesperada para nunca mais serem vistos.

Todos somos sacos. Dos pequenos, dos grandes, dos finos, dos grossos, dos bonitos, dos feios, dos maleáveis, dos inflexíveis, dos macios, dos ásperos, dos frágeis e dos resistentes. Todos nós nos tornamos sacos para os outros, que por sua vez se tornam sacos para nós. Não se dá importância ao porquê do saco ficar cada vez mais frágil ou cada vez mais áspero. Não se dá importância se estão felizes ou tristes, se ainda gostam de filmes espanhóis ou se preferem os suecos, se gostariam de nadar no mar à noite, se incomodam-se com o sol, se choram ao ver os telejornais. Não se dá importância se escutam alguma música que os fazem reviver um cheiro, talvez uma música dos Rolling Stones? Talvez um Frank Sinatra? E por quê. Não se dá importância se preferem amarelo ou laranja, se já dançaram sozinhos rodopiando pela casa ou pelas ruas, se já molharam o pão no café com leite ou se gostam de cebola. Não se dá importância se preferem letra corsiva ou de fôrma, Arial ou Times New Roman, normal, negrito ou itálico, minúsculas ou maiúsculas. Não se dá importância se têm sonhos, ambições, sentimentos paradoxais e que são seres complexos apenas procurando compreensão, aprendizado e colo. Qualquer importância disso, qualquer atenção quanto à isso, é ilusão. No fim, todos são apenas sacos. E eu sou um saco.









ps: recado à "JULIANA": Vou te responder aqui já que tu não deixou nenhuma forma de contato, ok? Primeiramente, obrigada pelos elogios! :D Nem consigo me imaginar escrevendo um romance! Bem que eu gostaria muito, mas tem que se ter uma idéia fixa e minha cabeça fica muito avoada! Obrigada pelo incentivo, espero que um dia eu consiga publicar alguma coisa hehehe :D E respondendo as suas perguntas: Sim, são personagens inspirados em pessoas e fatos reais e os conheço muito bem. E bom, se ele lembrou eu não sei dizer com certeza, mas se te deixa contente, assim como a mim, acredito que sim ;)

por Laila Razzo *

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Donnie era um cara misterioso e fazia questão de ser assim. Ele pensava que o mistério dele era simplesmente não deixar as coisas claras, e mal sabia o que realmente atraía aquela garota que ele falou a primeira vez no final de fevereiro daquele ano que veio pra mudar tudo.

Giu era uma sonhadora, sempre foi e provavelmente sempre será, mesmo que possa acabar se escondendo através de palavras demais impossibilitando o mundo à compreendê-la. E mal ela sabia também o que viria a se tornar.

Donnie tinha uma propensão genuína que ele desconhecia pelos obstáculos que se impunha, todos os escudos contra as essencialidades da vida que ele via como perda de tempo e contextualizava como fraqueza. Mal ele sabia que seus escudos que eram estúpidos e se tornaria mais um desses que escrevem canções de amor e cartas enquanto tomam doses de whisky.

Giu sempre escreveu canções de amor, mas pra alguém invisível, com toda a imaturidade de uma criança e todas as indagações de um adulto. Ela nunca soube onde estaria se metendo e nem como sairia disso. Na verdade ela nunca pensou em saídas, ela sempre pensou nos começos e nos meios, fins eram ocasionalidades tristes que ela preferia não pensar a respeito. Mal ela sabia que fins realmente existem.

Donnie procurou estabelecer regras pra organizar esse sentimento estranho ao seu corpo dentro da sua vida que nunca realmente precisou de nada disso pra valer à pena. Todas as regras se quebraram, tudo se espatifou e ele se perdeu em uma imensidão de horizontes vazios. Mal ele sabia definir como isso veio a acontecer, e riu pra si mesmo o sorriso mais triste que alguém já deu.

Giu flutuava ou boiava. Não tinha o pé fincado em lugar algum, não via diferença entre céu e terra, ficava assim... rodopiando em uma atmosfera de dor e perguntas sem resposta. Mal ela sabia que o que a envenenava seria aquilo que a faria crescer.

Donnie não conseguia controlar suas palavras agressivas, era o mínimo que ele podia fazer depois de ter se decepcionado tanto. E ele sentia raiva de si mesmo por apesar de tudo sentir saudades do cheiro da pele dela, mesmo que ele não admita sentir raiva por coisas assim. Mal ele sabia que ela conhecia todos os seus defeitos e os aceitava não porque pensava que merecia como penitência, mas porque amava suas qualidades muito mais.

Giu chorava todos os dias e por tudo, talvez ela seja assim até hoje, eu não sei ao certo. Ela sabia que merecia ser feliz mas não conseguia levá-lo pro mesmo abismo que ela se encaminhava, não era justo, porque ele não merecia aquilo, ele merecia ser feliz. De impulsiva se fez inconsequente e cada segundo da sua vida em contagem regressiva vem a sensação de claustrofobia que ela adquiriu com o passar do tempo. Mal ela sabia que a vida seria tão dura.

Donnie de vez em quando lembra da sua gargalhada enquanto fuma um cigarro no terraço, e ela ecoa até ficar tão distante que some, assim, inexistente como a presença dela. Ele percebeu que continuava com seus métodos frios mas também não queria mudar, ele pensava que assim que tinha que ser e guardava dentro de si um fiapo de esperança de felicidade tão frágil de se olhar... mas inquebrável. Mal ele sabia que a vida não precisava ser tão dolorosa.

Giu não sabia mais no que pensar, no que acreditar, mas seguia em frente, sabe-se lá pra qual destino. Quem a olhava nos olhos podia perceber que ela tava lá no fundo, se arrastando, procurando uma brecha de luz. Ela se tornou uma pessoa ansiosa e sentia o coração pulsando cada vez mais acelerado. A agonia de não saber o que se espera a fazia esperar por coisas sem valor, como a hora que ela tivesse que sair de casa obrigada a enfrentar o mundo lá fora, simples coisas cotidianas. Mal ela sabia como era se sentir assim e que ele já havia passado por isso.

Donnie e Giu mal sabem de nada, mal sabem de tudo. Mal sabem como é sentar um de frente pro outro e jogar barriga inchada em um dia tedioso, mal sabem o que é nadar no mar juntos, mal sabem o que é pegar uma estrada só os dois, mal sabem o que é pegar um livro de receitas e tentar uma coisa nova, mal sabem quantas canções tristes de amor poderiam compôr e mal sabem ainda mais que nem toda canção de amor tem que ter uma ponta de tristeza.

Mas Donnie sabe o que é rir da risada dela, o que é ir pro aeroporto e esperar que ela chegue e ainda vestindo uma roupa imprópria, sabe o que é ter que aguentar toda aquela teimosia que ela insiste em não largar, sabe que ela segura o garfo de maneira engraçada, sabe que ela não cala a boca um segundo e quando se cala alguma coisa tá errada, sabe porquê ela gostou ou gostaria daquele filme, sabe que ela perde a vaidade de tempos em tempos, sabe que ela finge não estar com dor de cabeça pra poder fumar em paz, sabe como é dançar sem música com ela, sabe como ela é medrosa, sabe como ela pega no cabelo, sabe como fazer cócegas nela, sabe que ela é capaz de bater nele se estiver com raiva e falar mais palavrões do que ele já escutou na vida, sabe que ela fala alto demais e deixa ele com vergonha, sabe como é acordar e ver ela dormindo ao seu lado, sabe como é se entreolharem e não precisar de uma palavra pra compreenderem, sabe que ela bate o pé no chão quando quer alguma coisa e como ela fica um saco quando tá manhosa. Donnie sabe muito, sabe mais do que ela própria sobre si mesma.

E Giu sabe exatamente como a sobrancelha dele vai se mover, sabe que ele não ri pra fora quando tem uma crise de riso e pega tão forte no braço dela que fica a marca, sabe que a risada dele também muda de tempos em tempos e que ele já teve uma que mais parecia um porco, sabe que quando ele diz que tem uma surpresa pra ela é um porco rosa aliás, sabe como é sentir admiração só de ficar observando-o, sabe o que é ficar irritada com o silêncio dele, preso nos próprios pensamentos, sabe que ele fica com as costas encurvadas e ainda assim fica mandando ela ajeitar a postura, sabe o que é ter que ficar ouvindo mil reclamações e querer mandar ele pra algum lugar não muito prazeroso, sabe como é quando ele se empolga com algo e só consegue falar disso, sabe como ele se vicia em uma música e a faz escutar a mesma toda hora, sabe que ele não consegue largar o violão e sabendo que ela não aguenta mais ter que ser platéia, ele toca uma música da banda preferida dela, sabe qual é a sensação do melhor abraço do mundo, sabe que ele faz carinho como se tivesse acariciando um cachorro. Giu sabe muito também, e dá valor pra coisas que ele talvez nem imagine que ela lembra. Ela costuma pensar que o dia em que eles sairam só os dois pela primeira vez é feriado por causa deles, porque definitivamente é motivo de feriado, e fica imaginando se ele continua ruim de datas ou se lembrou que é hoje.


por Laila Razzo *

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Saca só, você acorda às seis da manhã, que dia lindo, o sol brilha, os pássaros cantam, que sensação maravilhosa. Fast Backward 2x, erro de descrição. Play.

Saca só, você acorda às seis da manhã, puto, exatamente porque acordou às seis da manhã, os pássaros parecem estar todos mortos, o sol recém-nascido parece mais distante do que ele realmente está e uma chuva inesperada vem pra te fazer fumar de janela fechada. Que sensação maravilhosa. Fazer o quê? Assistir Harry Potter e a Ordem da Fênix! Tchurururulí! Fast Forward 8x: Assistindo o filme, às vezes rindo para a televisão, outras séria com cara de urubu. Não é necessária a descrição dos olhos cheios de lágrimas ou da careta vem-choro-aí. Fast Forward 20x. Play.

Marinete entra no meu quarto, ela tinha inventado de fazer meu prato e trazer pra mim. Pause. Zoom. Zoom. Zoom. Olhem esse prato. Olhem esse prato! Aquele morro bem ali é só arroz, a parte escurecida ali no meio foi uma idéia bem saudável de derramar toda aquela manteiga pós-passação-de-bife e lá estão os dois bifes bem passados, sendo que eu gosto de mal passado. Nem falei nada, ela fez com tanta boa vontade... Não acredita que não falei? Pois veja! Zoom. Zoom. Zoom. Zoom off. Play.

Ela me entrega o prato, finjo que é super normal comer um quilo de arroz e continuo assistindo Sonhos. É, comi pedreiramente, meus caros. Fast Forward 24 horas. Play.

Marinete decide me servir de novo. "Okay, ela tá gostando disso. Vamo lá, alter ego, aposta quanto como vai vir comida pra cinco?". Fast Forward 4x. Play.

Marinete adentra meu quarto. Pause. Zoom. Zoom. Zoom. Vê aquela coisa empapada e amarelada tomando conta do prato inteiro em forma de prato fundo ao contrário? Arroz com creme de leite, uns pózinhos e cogumelo. Vê o outro componente? São quatro pedaços de carne, meus caros, sim senhores. Zoom. Zoom. Zoom. Zoom off. Play.

"Marinete! O que que é isso?!". Dessa vez não deu. Ela começa a rir loucamente. Fast Forward 2x: Laila andando igual um cavalo pangaré até a cozinha, tira metade daquilo tudo. Play.

"Marinete, eu não posso comer isso tudo! Se eu deixasse no prato eu ainda era capaz de comer, mas não posso comer essa monstruosidade não, ia virar o próprio monstro!", ela ri mais ainda como se Santa Claus was coming to town e comenta com Leude: "Ela ainda vai voltar aqui pra repetir!". Fast Forward 4x: Laila volta ao seu quarto com a bandeijinha de doente e come seu prato agora decente, e não, não volta pra repetir. Play.

Fast Backward 23 horas. Play.

Assistindo Sonhos de Akira Kurosawa e pensando que se fosse eu ou um outro "qualquer um" que tivesse feito iam achar uma merda, empty, low quality, pointless etc, mas já que são os sonhos dele, tudo bem, belezura, amazing, terrific, breathtaking e todos os outros termos que esse povo coloca nos títulos das suas reviews pessoais. Fast Forward 20x. Play.

Tendo que criar em grupo um outdoor pra uma pizzaria que tem uma exclusividade empolgante! Queijo que não estica, queijo que faz crock. Errr. Não é empolgante, okay? Fast Forward 8x: Brainstorming, defendendo idéias, falando de pizza e de pizza e de pizza. Apresentando pra turma e falando de pizza, e porquê uma foto de uma pizza imensa no outdoor faria alguém passando de carro ficar com água na boca. Vontade de comer pizza. Muita vontade de comer pizza. Noção de que mamãe não ia querer me levar pra comer pizza. Indo pra locadora, escolhendo filmes, indo na conveniência ao lado atrás de pizza congelada. Não tendo. Play.

"Já que não tem pizza...", viro pro refrigerador de cervejas. Fast Forward 2x: Pego um saco de ruffles cebola e salsa, peço um maço de hollywood vermelho e um tridente de melancia, me sentindo em um desses filmes de viagem de estrada. Pago. Volto pro carro. Play.

"Cerveja, é?", mamãe pergunta em um tom irônico típico.
"Não tinha pizza, fazer o quê?", respondo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo substituir uma pizza por duas Brahmas. Fast Forward 9 horas. Play.

Saca só, acordo às sete, sem entender o que se passa, sol escaldante me queimando e os pássaros ressuscitaram com poderes mutantes no volume do seu chilrear. Que sensação maravilhosa. Fast Forward 5 horas. Play.

Assistindo Rain Main. Pauso. Dou Zoom três vezes. Analiso uma foto na mão da atriz. Dou zoom quatro vezes pra ficar off. Dou play. Fast Forward 4x. Play.

Dou uma risada que não vou descrever, muito bizarra. Fast Forward 8x. Play.

Assistindo Rain Main. Olhos cheios de lágrima? De novo?! Fast Forward 8x: Termino de assistir o filme. Vou para o computador. Vontade de escrever sobre o meu dia-a-dia. Começo a escrever, escrevo o começo, paro, releio, vou em outra página, continuo a escrever, escrevo e escrevo, paro, implemento os 2x, 4x, 8x e afins nos outros Fast Backward e Fast Forward, escrevo mais, releio. Chegando ao tempo real. Play.

por Laila Razzo *

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Fazendo das tripas coração meus pulmões enchem-se. Não de vida, mas de parcelas de morte, e de forma incoerente me sinto viva, funcionando, podendo mexer braços e pernas, mesmo que doam e um enjôo ocasional me acometa. Queria eu ser uma dessas pessoas que vomitam facilmente, assim possivelmente tudo aliviaria, como pensei ontem. Mas foi só me entregar ao sono, a um universo paralelo do qual nem lembro quais esquinas percorri, não hoje, que desliguei. Esperar dormir até de manhã tem sido cotidiano, durmo no escuro, acordo no escuro, tenho visto todas as auroras e todos os crepúsculos. Só visto, não assistido, não mergulhado em plena contemplação por cores e formas, só existido enquanto o mundo completa meia voltas, terço de voltas, quarto de voltas, voltas completas, assim, meio incompleta.

Tristeza, felicidade, excitação, frustração... Nada disso realmente existe. Existe um passo atrás do outro, um passo à frente do outro, assim, no meio de campo, e uma receptividade anormal para todo o abstrato representado nisso ou naquilo que vêm a todo gás e grudam na extensão da minha existência como positivos atraem negativos e seu vice-versa. Minha mente é um buraco negro, não só pelas facetas do desconhecido e das indagações, mas por essa capacidade de sugar o que há de podre além do meu alcance físico para um labirinto de reciclagem e torná-lo belo, mesmo que impalpável e invisível. A meta talvez seja essa, torná-lo sólido, mas tamanha conversão resultaria em algumas perdas, porque seria como limitar algo grandioso e extenso a feitos que outros talvez compreendessem melhor como um trabalho bem executado.

A busca exaustiva pela individualidade dentro de um sistema em que cada organismo não é nada além de uma célula imperceptível formadora da massa homogênea relevante é confuso, de fato. Dividir o eu-eu do eu-sociedade é complexo, um não existe sem o outro, sendo complexo igualmente tornar-me eficiente ao gerar resultados visíveis que buscam espelhar meus pensamentos. Se intelecto é sinônimo de talento, ele não deveria ser desperdiçado, mas o mais lamentável geralmente ocorre: ver um talento tendo que descer o seu nível natural para satisfazer o que o eu-sociedade precisa de acordo com o que é dito aceitável e inaceitável pelo conceito de Bem Maior oriundo das limitações da maioria, mas que infelizmente é necessário para a organização e a ordem. Descer a um nível que outros conseguem executar com facilidade através de técnica e gestos mecânicos. Se tornar só mais um é um receio.

O talento é categorizado pela junção e sintonia da ação e do intelecto, e mesmo assim sendo, certas ações e formas palpáveis de demonstração de grandeza de algum tipo podem ser classificadas como não aceitáveis, e logo, polêmicas, causadoras de conturbações e atrito. Mas o mundo é feito disso, diferenças, e as pessoas não se permitem compreender e aceitar outras visões. Simples assim.

O desperdício é ainda maior do que parece, pois não se trata apenas das diferenças, mas como as pessoas se desenvolvem de acordo com padrões e não permitem nem a si mesmos de explorar seus verdadeiros talentos, seus verdadeiros "eus". A informação, o conhecimento, está ao alcance da maioria, mas o conformismo e a comodidade de viver em um mundo em que é possível estar do outro lado do oceano em algumas horas, se comunicar com qualquer pessoa que esteja em qualquer lugar em tempo real, com eletricidade, com calefação e ar condicionado, com geladeira, sistemas numéricos e máquinas para usos inimagináveis, ao invés de dar uma maior liberdade e tempo para o processo criativo acaba tornando-o praticamente extinto. A informação existe para ser copiada e decorada, não para ser uma influência e uma base, e os cultos são os que conhecem nomes ilustres em teorias pioneiras. Se fossem mesmo inteligentes chegariam à teorias parecidas por simplesmente deixarem-se pensar, e se de fato deixassem, poderiam desenvolvê-las em linhas inovadoras.

A ausência de tantas sensações essenciais em mim é pela incapacidade de fazer das minhas abstrações esse algo palpável para que eu me sinta alimentando o meu eu-sociedade. Palavras são de certa forma uma expressão compreensível para todos, capazes de gerar o algo palpável, mas apenas "de certa" forma, já que há uma necessidade da compreensão do leitor. E com elas eu vomito facilmente, ou melhor dizendo nessa ocasião: defeco. Porque mesmo que isso tudo pareça um vômito, por muitos verem um montante de frases sem nexo e idéias confusas, pra mim é o resultado de uma digestão. E fezes... bom, fezes são obras-primas.


por Laila Razzo *

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Esboço sem formatação e o diabo à quatro.

EXT. CAFÉ - DIA

MARY


Eu acho isso tudo muito estranho. Como alguém que por um tempo é o centro da tua vida simplesmente se torna mais um estranho na multidão...

JANE


Eu acho que nunca deixei de amar ninguém. Eu não consigo.

MARY


Mas o sentimento muda.

JANE


Muda.

MARY


E tu só ainda gosta de pensar que é amor pra não desvalorizar o que passou.

JANE


Talvez...

MARY


Eu acho que sim. Porque a gente vive acreditando que amor tem que ser pra sempre. E a gente tem medo de enfrentar o fato de que possa ter acabado, porque aí não seria amor e a gente teria vivido uma ilusão.

JANE


Mas quem disse que amor não pode acabar?

MARY


É o que dizem, é como a gente cresce acreditando.

JANE


Então seria só eu mesma me enganando?

MARY


É... É aquele negócio, as coisas se tornam reais se tu acreditar nelas. Essa xícara só existe porque eu acredito que ela exista.

JANE


Mas tu consegue enxergar ela, tocar ela...

MARY


Mas eu poderia ignorar a existência da xícara se ela não me fosse útil ou importante. É uma coisa da percepção.

JANE


Tipo quando tu lê sobre, sei lá... Durkheim. E de repente ao teu redor aparecem várias coisas relacionadas a ele...

MARY


É... Elas sempre estiveram lá, tua percepção só era limitada pra perceber, não fazia parte do teu conhecimento, não te era útil...

JANE


Mas eu continuo acreditando que o amor só mudou em tipo.

MARY


Amor de homem, amor de amigo?

JANE


É, algo assim.

MARY


Amigo como? Tu fala com ele todo dia? Tu compartilha com ele várias coisas da tua vida atual? Ou tu só confia nele à distância e sente um carinho pelo que vocês já viveram ou pelo que ele é?

JANE


Hm... Confio e sinto um carinho.

MARY


Hmm... Foda-se, é amor. É tudo o que tu quer que seja, ou nada. Às vezes eu me canso de ter que rotular tudo, nem se eu engolisse um dicionário eu conseguiria rotular sentimentos e sensações de forma precisa.

JANE


Acho que é exatamente aí que as pessoas pecam... Nos rótulos.

MARY


Mas todo mundo precisa de uma informação exata sobre o que outra pessoa sente. Ninguém quer viver nada de maneira não recíproca.

JANE


Mas aí eles podem dar um mesmo nome para sentimentos diferentes. Até porque... Sentimentos não tem a ver com limitações? Não tem a ver com demonstração?

MARY


Não necessariamente, mas... Quem acredita em algo que não é provado?

JANE


Pra alguns demonstrar carinho é só querer saber se tu tá bem. Pra outros é dando um presente caro. Pra outros é tirando o próprio sangue pra molhar a boca e sair dando beijos no teu pára-brisas...

MARY


Então um relacionamento saudável seria aquele em que as formas de demonstração das duas partes fossem iguais?

JANE


Hmm... Não... Seria chato...

MARY


Seria...

MARY


A conta, s´il vous plait.

JANE


Tu ainda vai me matar de vergonha...




por Laila Razzo *

Quinta-feira, Abril 03, 2008

There are some things in your life you never expect to happen, but then they come and blow right on your face, like a drunk falling-on-the-floor friend who suddenly vomits on your right foot. Gross, but what can you do? Or you puke as well to make the whole story funnier later or you play responsible, hold your nausea and lead your friend somewhere safe. Both are pretty nice at the end of it all, isn't it? People tend to repeat the ancient (sometimes I wish I'd know who came up with it): look at the bright side. How many times it seems it doesn't really have one... To those times I might assure you: wait and see (another quote I'd like to know who said first), because it will show sometime if you're not a highly potential suicidal depressive and pessimist type of person who's got some pathological psychology-explains obsession of feeling guilty about everything all the time. Yes, I am a graduated Drama Queen, thank you for noticing.

There were so much I never knew... And I played the role of the mature person, full of theories, ethics, morale. Well, I do have cojones for some stuff though, I'm pretty sure about that, however for others... I'm this little frightened girl, who can't decide on being a child or growing up fully. Probably none of these are real at my age, being in the middle of it all is just empty. Time for big decisions, to build the foundations for the future! Sounds exciting, but it's quite depressing in fact. When you realise that even when you've established your limits you can break them easily (ask the cosmos why!) you feel like you're rubbish and to get your pieces back together... Well, it takes time. They say a broken vase is never the same when glued back together, it´s like saying scars are all ugly. Mate, that's what I call rubbish.

You see, I am this intense person, who can't get enough, who's got these theories about every little piece of crap and got fine and fair principles for that. Both sides mixed up ends up with...? Ten points to the one who gets it right! Three seconds! 1, 2, 3... Catastrophe. Disaster. You name all the synonyms. Sounds too dramatic? Hey, I warned you.

Finding a balance when you're impatient and impulsive and you've got no religion, nothing to hold on to, is not only let's say... difficult, it's challenging. And hey, I'll tell you something else about me, I get mad when something I want becomes a challenge, I might become a freak! And when it comes to my own behaviour, I get worse! Boo, I haven't made up my monster name. Is there already a Frankenstein around? Oh yeah, that Mary Shelley's one. Okay, you may call me It. I swear this one wasn´t on purpose, but there's also an It already, It Adams, huh? Let's get over with it. Haha. Got it?

I gotta say too I try not to walk on the lines just like Jack Nicholson in that movie. And I make up stupid challenges to myself like: "if I throw this paper ball right on that picture on the wall nothing bad will happen tonight". When I see that the picture is too far away I change for something closer and if I can't reach my target I give myself as many chances as I need to reach it. I make up things in my mind, okay? I live in a fantasy world most part of the time, I make up situations with people. I create movie dialogues in the shower acting as both characters, occasionaly more. With some I cry. I'm always singing songs that never existed, they come to me in lyrics and melody, flowing weirdly and usually I feel like I've found a true hit, but when I realise so it vanishes from my mind intirely. I have food seasons, nowadays I've got a milk shake situation going on. I rehearse what I am going to say in order not to put myself in a hearse instead, coffin and flowers checked on the list. I see art where others can't see and Oscar Wilde´s "all art is quite useless" makes me smile.

Can't explain what all this was for. Maybe a warning, maybe just another impulse, maybe nothing. Yeah... Nothing.

por Laila Razzo *

Terça-feira, Março 25, 2008

Mary esperava Jane em uma das poucas mesas vazias do Café. Todos riam e comentavam do dia de trabalho, ou do final de semana que se passara, tomavam café e comiam bolinhos. Mary se contentava em fumar um cigarro atrás do outro, como se se assim não fizesse seria capaz de se distrair de alguma forma inaceitável pelos outros. Na verdade, seu comportamento com o cigarro já era inaceitável demais para aqueles em seu Happy Hour. Mary vivia o Sad. Sendo assim logo pediu para o garçom uma dose de uísque. Olhares a cortaram. O que uma menina tão nova como ela fazia aquela hora sozinha em um Café fumando compulsivamente e revirando com o indicador o gelo em um copo de destilado?

Fazendo de conta que não ouvia os comentários maldosos e críticos das pessoas vestidas em trajes sociais, ela continuou brincando com o gelo tentando escutar em meio aquela explosão de blablablás o seu tilintar contra o vidro do copo. Era um exercício de concentração, de bloqueio, e mais uma vez ela não o conseguira. Enxugou o dedo rapidamente no jeans que usava e deu um longo gole no Johnny. Olhou ao redor com o intuito de intimidar os curiosos. Esses disfarçaram e viraram o rosto. Porém ela entreouviu:
- Não é a filha do Golias?
- Meu Deus, é mesmo!

Ela fixou o olhar no casal que comentava tão abertamente de sua vida como se fosse capa da Caras. Eles abaixaram o tom e continuaram dando espiadelas que em qualquer outro contexto seriam um tanto cômicas. Para ela era apenas triste e inquietante. A vontade de sumir e de explodir duelavam dentro de si tão fervorosamente que o único resultado foi seu silêncio e mais um cigarro acendido.

Jane sempre se atrasava, sempre a deixava esperando. Mary começou a lembrar de tempos passados e começou a rir sozinha. Pronto, mais um motivo para pensarem que a menina era uma desequilibrada, ou que no mínimo estava sob o efeito de alguma droga. E quanto mais memórias a acometiam, mais ela ria, e já começara a gargalhar tão abertamente que alguns olhavam para suas orelhas procurando algum fone de ouvido pra ver se ela estava ao telefone ou escutando alguma piada na rádio. Nenhum dos dois.

O que a fazia rir era a lembrança de um show imaginário em seu quarto no qual Jane segurava como microfone uma Free Willy de brinquedo e dançava loucamente, seguida das lembranças de uma gravação de um filme de terror em inglês que elas haviam feito com as outras amigas, de quando tinha aquela brincadeira à três, que ainda acontecia às vezes, de começarem a se bater com o travesseiro, dar chave de braços, imobilizar e encher de cócegas umas as outras até a outra não conseguir mais respirar, geralmente a mais engraçada delas sendo o alvo principal sempre, de quando ela mesma soltou um peido no meio de uma crise de riso, de quando se inventava músicas em uma verdadeira embromação de inglês ou até mesmo francês, de quando descobriu em uma agenda velha de Jane escrito "mamãe é boboca", de quando Jane insistia em tentar arrotar o alfabeto, de quando havia começado a falar com Jane...

Ela havia quebrado a perna e Mary sem ter nenhuma forte ligação com ela se dispôs a perder o recreio pra ficar na sala fazendo-lhe companhia. Tudo o que Mary queria quando pequena era uma amizade verdadeira, "como as de filmes", ela dizia, e ela procurava por isso. Nessa lembrança as gargalhadas cessaram e se resumiram à um sorriso sem dentes, mas sincero. Mary lembrou-se em como aquilo foi uma meta para ela quando tinha onze anos e em como falava daquilo abertamente e como às vezes até impusera aquilo dando vazão para uma colega insegura usar isso para ter a completa atenção dela e de Jane, e foi como ela percebeu que aquilo não era para ser planejado ou imposto e se libertou de tal ideologia. Aquele sorriso que esboçava na face e que fizera ela levar o cigarro à boca com mais tranquilidade era exatamente pelo fato de que no final das contas o que ela tinha era uma amizade como as de filmes, essas de cinema.

Jane chegou quase uma hora atrasada e apesar de ter deixado Mary impaciente por toda aquela espera, quando viu a amiga toda a chateação desapareceu. Jane sentou-se, pediu um cigarro e perguntou que diabos Mary fazia tomando uísque. Mary não se incomodou como quando os outros ao redor a lançavam olhares de desaprovação, na verdade ela não se incomodou nem um pouco, ela riu, porque sabia que se ela não falasse nada à respeito ou se simplesmente comentasse "porque eu tava afim", Jane não teceria críticas, não insistiria em um assunto tão insignificante e o melhor de tudo: realmente a conhecia e compreendia.


por Laila Razzo *

Domingo, Março 23, 2008

São por essas e outras que a vida não é um ciclo vicioso monótono, exatamente por isso. Você nasce uma mala, um compartimento vazio, e sempre confrontado com as mudanças você revive a sensação do nascimento. O desespero pela incompreensão da vida, o medo do desconhecido, simplesmente o vazio puro e essa propensão de se encontrar em posição fetal na cama, pedindo conforto, segurança, pra sabe-se lá quem ou o quê. E toda mala é preenchida e esvaziada, talvez malas não se lembrem das roupas antigas que a habitaram, mas a gente lembra de tudo, pois apesar de adormecido ainda está lá por fazer parte do nosso processo de crescimento, crescimento mesmo muitas vezes só para alguns, mas enfim...

A partir do momento que a gente começa a perceber que viver não é tão ruim assim através de experiências prazerosas, como o sono depois do parto, o toque gentil na nossa pele, o vento nos poros umidecidos, a sede quando saciada, a gente começa a preencher essa bagagem. Tudo que é bom só é bom porque entra em contraste com algo que nos causa desconforto e assim a gente vai aprendendo e assimilando sem nem saber. Até aí é tudo muito fácil.

Quando a gente aprende a se comunicar, a gente não necessariamente aprende a se comunicar direito, e isso é muito relativo. Afinal de contas, o que é se comunicar direito se é necessária a capacidade do interlocutor de compreender a mensagem que passamos? Capacidade essa que não se pode sempre falar quem tem mais ou menos, porque também depende das concepções, experiências e formas de percepção de cada um. Nisso tá incluso todas as formas de comunicação: expressão corporal, facial, escrita, falada, arte etc. E é através dessa comunicação complexa que se passa a assimilar as coisas ao redor. A incompreensão pelas diferenças é o maior obstáculo.

A melhor parte da assimilação dos fatos é quando se é capaz de procurar entender, e isso sendo feito inserir algum novo conceito e lição na nossa vida, deixando-os abertos para mudanças no futuro, onde é sempre importante reavaliar e dá uma olhada em tudo que temos na nossa bagagem acordando até os defuntos do passado, defuntos esses que se manifestam no dia-a-dia com outras caras e passam desapercebidos.

Mas qual o sentido de se testar, de arriscar, de procurar se entender se é algo que não vai atingir seu fim nem no leito de morte? Se ciclos viciosos são chamados de viciosos por um motivo? Todo esse pessimismo é espancado até ficar desacordado quando algo inesperado ocorre dentro de um desses ciclos, não necessariamente uma ação, um gesto, mas melhor ainda: algo dentro de você. O vazio vem pesando toneladas, mas quando você percebe que você simplesmente não se sente desconfortável como você se sentiria de acordo com todas as outras vezes das quais passou pela mesma coisa a felicidade é no mínimo estranha. É como de repente aparecer mais dois braços no seu corpo e você não achar ruim.

Às vezes eu penso que quando eu estiver prestes a morrer eu vou rever tudo na minha cabeça e o que será que eu vou rever que eu ainda não revi e nem vivi... E só assim vou poder dizer se valeu à pena viver. Enquanto isso não chega eu vou me construindo pra me entregar pro vazio eterno sem relutâncias, sem desconfortos, satisfeita com o que fui e o que deixei pra trás.

por Laila Razzo *

Segunda-feira, Março 17, 2008

Out of season, out of cess, such a mess... I´m such a mess.


You see? It´s raining outside again. Not much different from my insides still. Probably it has never been as strong as this, probably it won´t be the last time until I get to the point of almost drowning to feel life back at my skin. Pain makes you feel alive, as they say.

Sleeping and not resting is like riding a bicycle and not feeling like raping the wind passionately. Something I can´t even speak of, you see... I can´t even ride a bike, just as I can´t put this feeling aside. It´s not about learning the tactics and strategies, it´s not something I can learn to shield, it´s just one of those somethings that comes, spit on your face, leave you fucked up with your embarrassment and stupidity and the well known let´s hope for the time to take it away.

When all you want is for the time to pass it gets stubborn. You can´t feel at peace even in your sleep, because your dreams come all in scenes of full psychological pressure, too real to be dreams. Your mind isn´t really keen to help you out, you see? Or is it your mind just another victim of the whole enchilada even at its subconscious state? Damn, woman... you´re in deep shit then. "Don´t tell me about it..."

And I won´t. I won´t waste words with wasted people. I won´t follow the script of riddles with riddled spirits. I won´t try to change all over again and I won´t take the blame this time. Wish all my won´ts were real as my theories. In theory that, in theory this... all the blinking time! It´s like spend your whole life only wanking.

My room smells of coffee and smoke in this 'just another monday morning', the rain is just a drizzle now sweetly falling down, even though I can hear thunders at a distance.


por Laila Razzo *

Domingo, Março 16, 2008

"There are a thousand thoughts lying within a man that he does not know till he takes up a pen to write". Ou então se encontrar em frente ao computador sem ter nada pra fazer e tudo que lhe resta são seus pensamentos embaralhados, o teclado e uma frase que te inspira ao aparecer em um simples clique.

Agora começo a tentar encontrar pensamentos secretos dentro da minha cabeça, e a pressão de fazê-lo eu sinto no meu canal nasal. A sensação é como se eu estivesse alguns metros debaixo d´água. Seria o mesmo com esses pensamentos? Estariam eles tão lá no fundo assim, sufocados? Ou eles seriam apenas parte de uma superfície aparentemente invisível que nos influencia tanto, nos faz o que somos, mas não percebemos? A vontade agora é apenas que eles saiam dessa imensidão, encharcados ainda, genuínos, brutos, para serem polidos, enxutos e depois remergulhados com a consciência de que eles estarão lá, boiando ou nadando, e provavelmente serem pescados novamente em um futuro próximo ou distante.

A curiosidade é um impulso mental, e a curiosidade pela sua própria mente é um filme sem rótulos, ao mesmo tempo que é uma comédia gostosa, é um drama desequilibrador, uma aventura eterna, um suspense que deixa a boca do estômago seca, uma ficção científica que teimamos em acreditar. Como achar tudo que há dentro da cabeça quando a procura é feita exatamente pelo próprio alvo? Como compreender uma máquina através dela mesma?

É insaciável e incessante, mesmo que excitantemente irônico por sua impossibilidade de ocorrência geral e total. É sempre assim? Sempre queremos o que não podemos ter? E se pudéssemos ter isso por completo não seria menos interessante também? É exatamente essa a motivação, não é? E a vontade de sermos pessoas melhores. Afinal, se não nos ocupássemos com isso seríamos definitivamente apenas carcaças animadas. A busca pelo equilíbrio, pela compreensão de todos os lados, pela aceitação destes, pelo mantimento de valores em prática e a flexibilidade para revê-los é o que não faz de algumas pessoas mais um grão de areia, apesar de cada grão parecer idêntico ao outro. A propensão a ver além, e ainda apenas e deveras louvável disposição para tal, faz um grão de areia diferente dentre os outros.

No fim não sei se achei nada de muito novo procurando pela minha mente, acabei repescando coisas que acho bom sempre lembrar e expondo de uma nova maneira, o que já faz a coisa em si receber um novo polimento mesmo que pareça ínfimo. E com essas frases que aparecem de repente eu consegui repolir uma idéia por achá-la em outras palavras: "I've got a very poor sense of direction. I keep forgetting which way is forwards". Porque é difícil saber o que é ir em frente quando se vira um grau e o caminho já é outro. Porque é difícil ajustar suas metas e objetivos aos dos outros. Porque é difícil tomar decisões perante dúvida. Porque é simplesmente o maior desafio humano: saber seguir em frente. Pra que lado é mesmo?

por Laila Razzo *

Quinta-feira, Março 13, 2008

Tempos como esse quando você se encontra na chuva e quando na chuva é onde você realmente pertence, não dá pra ficar com tantas pessoas ao redor. Todos os discursos têm palavras sem nexo e sufocam, e tudo o que você quer é desligar, dormir, e quem sabe acordar uma outra pessoa. Tempos como esse em que a chuva parece ser sua verdadeira expressão de espírito são vazios, são impotentes, você sente inveja do barulho que ela provoca, porque você... bem, você está muda para sua verdadeira causa, inerte.

E a chuva derrama o que você gostaria de derramar, fazendo uma correnteza, levando todo o lixo pra outro lugar. Mas você não se importa, você só quer esvaziar esse cesto pra preencher essa solidão lotada. O problema maior é o lixo proveniente das coisas que te importam. Como separar? Ninguém fez nem questão de dividir os biodegradáveis dos outros. Como mandar tudo pra reciclar? Metendo a mão na imundice toda pra tentar tirar o chiclete que grudou no copo ou a mancha de suco do papel. O que não é nada fácil, nada. O copo vai continuar com resquícios do chiclete e o papel com os do suco. Tudo virou lixo, lixo vira tudo.

A água por mais que pareça que lave e leve embora, não leva até muito longe, continua ali em algum lugar de qualquer forma. E o lixo que ela leva embora de outra vista de janela, vem parar bem em frente ao teu parapeito. Fugas não existem, lixo é lixo, e à todo momento alguma coisa está sendo estragada, jogada fora por impulso, amassada e atirada com violência ou como se pouco importasse a criação de mais. Parece que ninguém percebe no ato que está criando coisas ruins para si e para outros, e mesmo quando percebem mantém o orgulho e deixam passar aqueles segundinhos que tem a capacidade de praticamente apagar o que foi feito e não deixar o tempo putrificar tudo por si só. E às vezes não são nem segundinhos, às vezes são minutos, horas, são meses, anos, uma vida... E ainda se pode mudar alguma coisa voltando atrás em uma palavra que estragou tudo, assim como o chiclete que estragou o copo. Se alguém tivesse tirado na hora, talvez nem resquícios ficassem, mas o tempo o fez aderir e a reciclagem se faz falha na eficiência.

Por mais que a chuva alivie a paisagem e por mais que lágrimas aliviem um coração apertado, esse alívio nada soluciona. Assim como não soluciona o tentar esquecer quando ainda é recente, o sorrir quando por dentro tudo se deforma e esquecer do braço quebrado ao querer jogar volei. Engraçado, não? Então não tente ignorar seus erros, suas falhas, seu lixo. Correnteza vem, correnteza vai e eles vão continuar ali, apodrecendo seu foco de visão, apodrecendo você.




Observei a chuva pela janela hoje e uma embalagem sendo levada pela correnteza até desaparecer de vista. Sentei e escrevi isso.


por Laila Razzo *

It´s gotta be constant. Every now and then.
The world is ahead, never behind.
Take the ride of your dreams and put emptiness aside.
Each detail is a new journey.

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Laila. Razzo é pseudosobrenome. 2, Dezembro, 1988. Nosce te ipsum eterno.

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